Dor & Reabilitação09 de julho de 2026~10 min de leitura

3 exercícios de glúteo pra fazer em casa e aliviar a dor lombar

A dor na coluna pode ser glúteo fraco. Veja 3 exercícios pra fazer em casa, na ordem certa de progressão, e o detalhe de execução que muda tudo.

"Entendi que é o glúteo. Mas o que eu faço agora?"

Essa é a pergunta que mais chegou depois que a gente explicou por que a dor na sua lombar pode ser glúteo fraco. A conexão faz sentido, as pessoas reconhecem o próprio corpo na descrição, e aí vem o passo seguinte: o que dá pra começar a fazer hoje, em casa, sem equipamento nenhum?

Esse post é a resposta. Três exercícios, na ordem em que devem ser feitos, com o detalhe de execução que separa treinar o músculo certo de treinar o músculo que já era forte.

Antes de qualquer coisa, uma frase que vale pros três: o quadril fica parado. É a instrução mais repetida do vídeo acima, e não é preciosismo. É exatamente ela que faz o glúteo trabalhar em vez de deixar a lombar assumir o serviço.

Por que o glúteo, de novo

Vale um resumo rápido de onde a evidência está, porque isso muda o quanto vale a pena levar esses três exercícios a sério.

Uma revisão sistemática publicada na BMC Musculoskeletal Disorders reuniu 24 estudos, com mais de 2.000 participantes, comparando o glúteo médio de pessoas com e sem dor lombar. A maioria dos estudos mostrou redução significativa da força do glúteo médio em quem tem dor lombar, associada a mais carga sobre a coluna e menos estabilidade da pelve [1].

E fortalecer esse músculo muda a dor? Um ensaio clínico randomizado no Journal of Bodywork and Movement Therapies comparou dois protocolos em mulheres com dor lombar crônica. O grupo que fortaleceu os abdutores de quadril teve redução de 65% na dor e de 59% na incapacidade, contra 46% e 33% no grupo de estabilização lombar tradicional [2]. Em 2024, na Medicina, um programa que combinou fortalecimento de glúteo com estabilização de core superou o core sozinho, tanto em dor quanto em qualidade de vida física [3].

Treinar o quadril reduziu mais a dor lombar do que treinar a lombar diretamente [2].

Ou seja: não é um exercício de estética. É um dos caminhos com melhor evidência pra tirar carga da sua coluna.

A ordem importa (e não é aleatória)

Aqui está o que quase ninguém explica. Os três exercícios do vídeo não estão em ordem de "mais fácil pra mais bonito". Eles estão em ordem crescente de carga sobre o glúteo médio, e essa progressão tem respaldo direto na literatura.

Uma revisão sistemática publicada no Journal of Sport Rehabilitation analisou 20 estudos e 33 exercícios, classificando cada um pelo quanto ativa o glúteo médio, medido em porcentagem da contração voluntária máxima. O padrão encontrado foi claro [4]:

  • Exercícios de ponte bilateral produzem carga baixa a moderada
  • Exercícios de abdução e rotação de quadril produzem carga moderada, alta ou muito alta
  • Exercícios em apoio unilateral, com o membro oposto se movendo, são frequentemente de carga alta a muito alta

Compare com a sequência do vídeo: ponte, concha deitada de lado, extensão de quadril em pé. É exatamente essa escada. Cada exercício prepara o corpo pro próximo, e pular degrau é a receita mais comum pra compensar com a lombar em vez de fortalecer o glúteo.

1. Ponte de glúteo

Instrutora da Soliê deitada de costas no tapete, joelhos dobrados e pés apoiados no chão, quadril elevado numa ponte de glúteo, com braços estendidos ao lado do corpo e as mãos pressionando o solo. Setas vermelhas indicam o quadril elevado e a mão apoiada no chão.

Deitada de costas, joelhos dobrados, pés no chão na largura do quadril, braços ao lado do corpo. Você empurra os calcanhares contra o solo e sobe o quadril até formar uma linha reta entre joelho, quadril e ombro. Sem passar disso.

O erro clássico é subir mais do que o glúteo consegue e completar o movimento arqueando a lombar. Repare na imagem: a linha do tronco é reta, não é uma curva. Se você sente a região lombar "apertar" ou o abdômen estufar, subiu demais. Desce um pouco e refaz.

É por isso que essa é a porta de entrada da sequência. Carga baixa a moderada [4] significa que ela é generosa com quem está começando, mas ainda assim ensina o padrão que importa: extensão de quadril com coluna neutra. Sobe em três tempos, segura um, desce em três. Devagar e com controle, como diz o vídeo.

2. Concha, deitada de lado

Instrutora da Soliê deitada de lado no tapete, com os dois joelhos dobrados e os pés juntos, abrindo o joelho de cima em rotação externa enquanto mantém a pelve imóvel. Uma seta vermelha aponta para o joelho que se abre.

Deitada de lado, joelhos dobrados em torno de 90 graus, pés encostados um no outro. Você abre o joelho de cima, mantendo os calcanhares juntos, e fecha devagar. É a concha, ou clam.

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E aqui está a parte que quase todo mundo erra. É muito fácil "abrir mais" rolando o quadril pra trás. O joelho sobe bem alto, a pessoa sente que fez um exercício ótimo, e o glúteo médio praticamente não trabalhou. Por isso a instrução do vídeo é essa e não outra: o quadril fica parado. Imagine que existe uma parede atrás das suas costas e o quadril não pode encostar nela.

A amplitude verdadeira é pequena. Se você fizer certo, vai abrir muito menos do que imaginava, e vai queimar muito mais. Esse é o exercício de abdução e rotação de quadril que a revisão coloca na faixa de carga moderada a alta [4], e é a ponte natural entre a ponte no chão e o trabalho em pé.

Uma nota honesta: a literatura de eletromiografia mostra que a concha ativa o glúteo médio de forma bem variável entre pessoas e execuções [5]. Feita com o quadril rolando, ela vira quase nada. Feita com a pelve travada, ela entrega. A técnica não é um detalhe do exercício, ela é o exercício.

3. Extensão de quadril em pé

Instrutora da Soliê em pé de perfil, segurando um apoio vertical com as duas mãos, levando uma perna estendida para trás com apenas a ponta do pé tocando o chão, tronco ereto e pelve estável. Setas vermelhas indicam o glúteo contraído e a perna que vai para trás.

Em pé, de frente pra um apoio firme. No vídeo é a barra do estúdio. Em casa, o encosto de uma cadeira, a bancada da cozinha ou o batente de uma porta resolvem. As mãos ali servem pra dar referência, não pra sustentar o peso.

Você transfere o peso pra uma perna e leva a outra pra trás, estendida, até a ponta do pé tocar o chão atrás de você. Volta devagar. O movimento vem do quadril, não da cintura. Se o tronco inclina pra frente ou as costas arqueiam pra "ganhar" mais amplitude, você trocou glúteo por lombar de novo.

E tem um segundo trabalho acontecendo aqui, invisível. Enquanto uma perna se move, o glúteo médio da perna de apoio está segurando a pelve nivelada. É por isso que exercícios em apoio unilateral com o membro oposto em movimento aparecem entre os de maior carga pro glúteo médio na revisão [4]. Esse é o topo da escada, e o mais próximo do que a vida real cobra de você: cada passo que você dá é uma versão disso.

O que os três têm em comum

Não é o formato. É o princípio.

  • A pelve é a referência, não a amplitude. Nos três, quem manda no movimento é o quadril ficar parado. Mexer mais não é fazer melhor.
  • Coluna neutra do começo ao fim. Nenhum deles pede que a lombar arqueie. Se ela arqueia, o exercício mudou de dono.
  • Devagar e com controle. Velocidade esconde compensação. Lentidão expõe a compensação e obriga o músculo certo a trabalhar.
  • Progressão real, não repetição infinita. Fazer 50 pontes não substitui subir pra concha bem executada, e depois pro trabalho em pé [4].

Cada corpo é único

Antes de incorporar isso na sua rotina, três ressalvas que valem sempre:

  1. Dor irradiada pede avaliação. Dor que desce pela perna, dormência, formigamento, perda de força ou histórico de hérnia exigem avaliação médica antes de qualquer exercício. O exame guia o protocolo, não o contrário.
  2. Ninguém enxerga a própria compensação. É fácil rolar o quadril na concha, arquear a lombar na ponte, inclinar o tronco na extensão em pé. Da sua perspectiva, deitada ou de pé olhando pra frente, esses erros são invisíveis. E um exercício compensado treina justamente o músculo que já era forte.
  3. Constância, não intensidade. Os estudos citados aqui mostram benefício com 2 a 3 sessões por semana ao longo de semanas [2][3]. Uma sessão heroica não muda força. Uma rotina modesta e regular muda.

Por que a Soliê faz desse jeito

Esses três exercícios funcionam em casa, e a gente quer mesmo que você faça. Mas é preciso ser honesto sobre o limite: a evidência mostra que o efeito depende de dose, individualização e técnica, e as duas compensações mais comuns aqui, rolar o quadril e arquear a lombar, são exatamente as que você não consegue ver sozinha.

Por isso, na Soliê, no Água Verde em Curitiba, cada aula é individual ou em dupla, com no máximo 2 alunos por instrutora. Isso permite:

  1. Ver a compensação no momento em que ela acontece e corrigir antes que ela vire hábito
  2. Descobrir qual lado está mais fraco, porque quase sempre há um, e ajustar o trabalho pra ele
  3. Progredir na hora certa, subindo a escada de carga quando o seu glúteo estiver pronto, nem antes nem depois
  4. Adicionar resistência com segurança, com molas e equipamento, quando o peso do corpo deixar de ser desafio

Pense nesses três exercícios como a sua base. A aula é onde a base vira progressão.


Referências

  1. Sadler S, Cassidy S, Peterson B, Spink M, Chuter V. Gluteus medius muscle function in people with and without low back pain: a systematic review. BMC Musculoskeletal Disorders, v. 20, n. 1, 463, 2019. DOI: 10.1186/s12891-019-2833-4
  2. Aboufazeli M, Afshar-Mohajer N, Jafarpisheh MS, Heidari M, Akbari M. Recovery of the lumbar multifidus muscle size in chronic low back pain patients by strengthening hip abductors: A randomized clinical trial. Journal of Bodywork and Movement Therapies, v. 26, p. 147-152, 2021. DOI: 10.1016/j.jbmt.2020.12.035
  3. Ahn SE, Lee MY, Lee BH. Effects of Gluteal Muscle Strengthening Exercise-Based Core Stabilization Training on Pain and Quality of Life in Patients with Chronic Low Back Pain. Medicina (Kaunas), v. 60, n. 6, 849, 2024. DOI: 10.3390/medicina60060849
  4. Ebert JR, Edwards PK, Fick DP, Janes GC. A Systematic Review of Rehabilitation Exercises to Progressively Load the Gluteus Medius. Journal of Sport Rehabilitation, v. 26, n. 5, p. 418-436, 2017. DOI: 10.1123/jsr.2016-0088
  5. Reiman MP, Bolgla LA, Loudon JK. A literature review of studies evaluating gluteus maximus and gluteus medius activation during rehabilitation exercises. Physiotherapy Theory and Practice, v. 28, n. 4, p. 257-268, 2012. DOI: 10.3109/09593985.2011.604981

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